Não eram mais ciranda, nem brincadeiras
de roda ou de criança. Eram a verdade que se figurava em um rosto, em uma palavra
limpa e sincera, lágrimas infantis de um adulto. Não precisa ter medo, ainda
que o medo seja incontrolável e inconstante, permita-se sentir raiva, dor,
desespero, mas não deixe que isso seja uma constância. Era o paraíso para fora
dali. Era um portal de outra dança, de outro lugar que a metafísica aplicada
não alcança, lança, descansa. Era tudo isso e mais um pouco para mim. Não era
para ser passado ou futuro, era o presente que se figurava dentro de mim.
Canção de roda, cantiga trovadora de um poeta sem modos ou fim. Talento de um
anjo torto, caído, sem dom, mistura larga de dom assim. Era pra ser um pouco
disso, um tanto daquilo outro, era pra ser sentido e sentir. Era tanta coisa
que no fim era nada, apenas mais uma ciranda, brincadeiras de roda e de
criança, faz de conta... Era tudo mais o fim!
Fotografias'
Derluh Dantas
Olhando aquelas fotografias
antigas... O mesmo sorriso podia ser sentido tempos depois. Os cabelos ora
curtos, ora nem tanto. Os olhos denunciando por vezes o mais intenso dos brilhos
já vistos. A pergunta se formou por outro motivo: se era tão bom por que acabou
tão rápido, ao menos na opinião de um dos lados? A resposta era simples, acabou
o capitulo, o tempo - o vento - mudou o rumo da proa... Agora era navegar por outros mares
e lugares. Mas, as fotografias, agora antigas seriam levadas no peito e ao
alcance do desejo dos olhos, afinal eram boas e alegres as lembranças que elas
provocam. Tantos risos, lágrimas cristalizadas, brilhos e sentimentos dos mais
distintos, não têm como deixar as fotografias por lá, naquela casa fria e
vazia... Levo todas comigo!
Ele e a dança'
Derluh Dantas
Os pés estavam descalços a descobrir cada grão de
areia e pedra no chão. Talvez, algumas pessoas que o vissem assim, achariam que
ele estava louco, mas ele não se importava. Levantava as mãos para o alto e
dançava como se estivesse sido levado pelo embalo mágico que só ele sentia.
Seus olhos estavam fechados, enquanto seu corpo estava completamente entregue
ao ritmo do vento que balbuciava as folhas e galhos das árvores. Em sua face
marcas das lágrimas caídas momentos antes e o desenho ainda sutil de um sorriso
tímido. Ele não parecia feliz ou triste, apenas estava entregue aquele embalo
mítico da natureza. Ele estava sozinho, mas a solidão não o acompanhara naquela
dança.
Era ela, eu'
Derluh Dantas
Seu nome não era importante ser
dito ainda. Apenas, precisam saber que ela estava de vestido vermelho, lápis
nos olhos e sua confissão de culpada nos lábios e em toda extremidade de seu
corpo. Sim, ela cansou de negar sua culpa, de admitir sua inocência. Devido às
circunstâncias de seu crime, ela poderia ser tudo, menos inocente de toda e
qualquer acusação. Sim, era meio vítima, se olhássemos por outro ângulo, mas
agora isso não era importante. Ela enchera os olhos de sinceridade e da forma
mais autêntica que tinha, arrumou suas palavras dentro do peito, deixou algumas
lágrimas caírem lhe borrando a maquiagem e saiu olhando para trás. Seu maior e
o único crime de verdade: ter amado de mais e não ter sabido dosar!
Sobre aqui atemporal'
Derluh Dantas
A porta está aberta, entre e fique a vontade. Pode sentar-se
no sofá vermelho, ou se preferir o chão sempre será confortável aos pés
descalços. Não precisa se acanhar, esta casa além de minha, sempre será nossa.
Pode servir-se do que quiser, temos satisfação a todos os desejos, só não
espere que alguém lhe ofereça sem pedir, sem tentar, sem se movimentar. Se
quiser, a janela só está encostada, temos uma vista linda, não sei se você se
lembra. Caso queira saciar a sede, aqui não nos faltam água, frutas e os líquidos
mais saborosos a todo e qualquer paladar... Você perdeu nosso endereço? Não
precisa ficar assustado ou confuso, feche os olhos por um momento e deixe seus
passos livres, eu segurarei sua mão até chegarmos. Ou, se preferir, pode
mantê-los abertos e se encantar com a beleza e a contradição do caminho. É
possível que sinta medo, mas não se preocupe, o medo faz parte de nós, só não
permita que ele lhe faça parar, calar, cegar. Este, sempre que você deixar,
será o nosso lar!
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