Um despertar de quinta'


Derluh Dantas


Eu me sinto incabível, inadaptado, sem laço ou nexo, vou no automático, tentando bom caráter e bela conduta... Mas, essa noite sonhei com uma nota do passado, pensei que esquecida. Tive um pesadelo cinematográfico, acordei, tomei café e voltei à cama. Sonhei com pessoas que não conhecia, mas que traziam no olhar, no sorriso, no abraço um sentido de familiaridade, sentir-me como se voltasse pra casa.
Acordar tem me feito um tanto mal.
E este medo ou desejo insano da paixão, essa coisa sem sentido, dia após dia, rotina quebrada, falta de tato e de gosto, respiração sem rima.

Onde andará minha vida poesia?
A alma sentida?
Agonia.

Sobre um amor'

Nazaré - Bahia, 28 de maio de 2017.
Derluh Dantas
A casa está significativamente mais triste e vazia. Ao abrir a porta não terá mais aquela festa, os latidos, arranhões. Não terei mais com quem deitar no chão e receber as lambidas e mordidas suaves... Não tenho mais motivos para abrir a porta mais de cinco vezes durante a noite e ficar chamando para entrar ou para não comer a “descoberta” no cantinho do passeio.

Pois é, já não terei aqueles olhinhos redondos e cúmplices a me acompanhar quando vou à cozinha ou ao banheiro, quem arranhará minha porta pedindo para entrar ou para avisar que precisa ir lá fora cheirar o mundo?

Não tenho mais em quem tropeçar pela manhã cedinho ou quem me perturbar enquanto estou deitado no sofá, com aquele focinho úmido e geladinho que me assustava quando eu cochilava no meio da tarde.

Ele latia pra pedir biscoito, pra dizer que havia alguém na porta, porque uma barata/besouro passou voando ou por algum motivo secreto, e só parava quando a atenção estava por completo nele.
Fate nasceu em 10/06/2003.
Alguns dos melhores registros, ele não gostava muito de fotografias.

Quando mais novo, adorava um carinho na barriga, depois se limitava a querer apenas um cafuné. Quando sentia cócegas, se assustava com o espasmo nas patas traseiras. Era um dengo único aquele serzinho preto, que não conseguiu sustentar a cor, era quase desbotado, com toques intensos de um cinza empoeirado.

Caso eu tivesse que representar um anjo amoroso e fiel, com certeza ele estaria na lista e colocação número um. Eu costumava dizer que ele era um irmão canino de alma felina... Acho que as brigas com os gatos fez ele se assemelhar mais com os felinos que com os cães que via por aí. Era temperamental de um jeito fofo e especial, adorava rosnar pra mim, dizendo que não queria carinho agora, depois se arrependia sozinho e vinha cabisbaixo pedir carinho. Odiava ficar em casa sozinho, mas não se interessava muito com a casa cheia. Ah! Preferia garrafinha pet a brinquedo de morder, era um desafio tirar a tampa enroscada e fazer aquele barulho de plástico sendo amassado, mas depois da tampa saída, o encanto se perdia e ele deitava na escada olhando pra gente, como quem dissesse que cansou e precisaria de uns segundos para o próximo desafio.

Nunca foi muito bom em devolver a bolinha que a gente jogava, mas insistia para que jogássemos longe... Perdemos várias nessa brincadeira. Apaixonou-se uma vez, sofreu meses por um amor não correspondido, emagreceu, mas depois de um tempo melhorou com a ajuda de um passeio na praia (adorava a brisa marinha). Sabia muito bem a quem pedir pra ir à rua, pra banho, pra o almoço ou o lanchinho da noite. Quando estava triste ou pra mostrar descontentamento, fazia greve de fome, mas não resistia a um bolinho – de frango ou de ovos, adorava.

A gente já havia percebido o avanço da idade, passamos por uns sustos antes, ele ficara doente algumas vezes com a chegada da velhice... Mas, ninguém está de fato preparado para a despedida. Sabemos bem pouco sobre a morte, apenas que ela é implacável e inevitável, no dia da sua chegada, não há oração ou fé que sustente. Não importa muito o amor que inspirou ou semeou, a morte não distingue nada disso... Mas, as saudades e a falta sim, nós não falamos muito sobre isso, não conseguimos elaborar direito o acontecido, não há como evitar o choro, o pranto, a tristeza... Ele deixou um vazio que nunca será preenchido, apenas aprenderemos com o tempo a lidar com isto.

E se alguém me perguntar o que ficou de tudo isso?! Eu diria apenas gratidão, agradecimentos por ter a oportunidade de conhecer, conviver, amar e ser amado por um sujeito, um cãozinho feito de temperamento e muito, grande, sincero amor... De fato conseguimos um nome que dizia de sua companhia FATE – em português é sorte, destino – era nosso presente de seres míticos e da própria maravilha da vida.


Eu sinto saudades e continuarei a te amar, meu maninho canino de alma felina, FATE – Descanse em paz.

"E não será a última vez"


Derluh Dantas'
A dor de cabeça deu uma trégua e a febre saiu por aí, deve ter se distraído com alguma novidade. Depois de cinco dias definhando de uma infecção, um raro momento de sanidade e de raciocínio lógico.
Um amigo aos moldes da era virtual, mas com a atenção e o carinho daquele velho amigo de infância e janela de casa, fez de sua exposição uma recomendação musical para alguns de seus contatos, dentre eles eu. A música era “Ainda aqui sonhando” de Leo Cavalcanti, no vídeo clipe a parceria com Bruno Serroni.
A música mexeu comigo e num banho quente, no receio da dor ou febre retornarem ao meu corpo, percebi o quanto de sonhos eu deixei pra lá. Não, não leia com pesar estas palavras, eu as digo com alívio. Eu me desfiz de muitos planos e sonhos por eles pesarem como grandes pedras que eu carregava nas costas. Hoje, posso tropeçar neles e rimos da queda, mas já não tenho qualquer saúde ou desejo de carregá-los comigo. Assim vale para pessoas, amigos, amores, faz bem a companhia, mas se for ter que correr atrás, ter que engessar posturas, ter que ser “o sempre igual e legal”, já não me cabe. Eu fico muito melhor dançando no vento e mergulhando em oceanos profundos com sonhos e gente que acrescentem bons sentimentos e belas cores as experiências que vivo... Não mais aquela velha ladainha de decepções e frustrações pra depois dizer que a culpa sempre foi minha. Então, se sou culpado, aceito a sentença, peço a vítima perdão, eu a deixo pelo caminho e que nós nos deixemos VIVER em paz!

Em suma, se for para pesar nas costas, na consciência ou na alma, não sei se vale o conto, para mim vale mais algodão-doce, bexiga em cores e mergulho em águas correntes. Ah! Respeito, Abraços e Sorrisos sinceros ainda que pareçam bobos, valem ainda mais que conto, vale a vida!

Além do que se vê'

Derluh Dantas

Quando você chegar, não se assuste com a bagunça. Ou se assuste. Já não tenho certeza se você existe. Um dia desses, eu achei que você fosse um sonho meio insano, um canto óbvio de alguma canção exagerada de amor, de amigo, de um sentimento já tão floreado, que se faz inatingível. Eu cheguei a me perguntar se em algum momento nossos caminhos já se cruzaram, se talvez já nos fomos apresentados ou trocamos olhares em algum canto, curtimos alguma bobagem nessas redes sociais, acredito que não, melhor achar que não. Talvez, tenhamos nascido em tempos distintos e nessa existência não haverá o tão esperado encontro. Acho que melhor assim, as finanças não estão muito boas, as emoções tão um caos, o país vive um dilema ético e uma grande crise cultural e política/social. Eu não sei se teríamos como viver numa casa no campo e eu queria mesmo era agitar esse palco social, propor e lutar por mudanças e melhorias sociais, ir às ruas por direitos e respeito. A gente bem que poderia ser como o casal Prestes e Benário ou Kahlo e Rivera... Se bem que precisamos de um toque meio Madame Satã, meio do começo ao fim, planejar revoluções e transar por celebração ou por busca de novas alternativas. Confesso que quando você chegar, eu terei medo e posso tentar te afastar de nós, mas acredito que como uma mágica meio boba, nós dois burlaremos essas armadilhas e juntos agitaremos o microcosmo de nossas relações socais. Ah! Que se dane o ser adulto e racional, apenas vem e vamos colorir este caótico mundo, vem!

Algumas Desculpas - Carta Aberta'

Nazaré – Bahia, 25 de outubro de 2016.

PARA VOCÊ,

A atualidade tem dessas coisas, se a gente se expressa de um jeito parece que queremos atenção, de outro é apenas dramalhão. Mas, valendo-me do direito e da responsabilidade da expressão, vou tentar falar essas coisas que estão pressionando meu peito e inundando minha alma. Sem mais delongas, começo assim:
Eu quero me desculpar por todos os abraços que não lhe dei, pelos papos que cessei, fugi, não tive. Quero me desculpar pelo colo que não ofereci e pelo que não te pedi as tantas vezes que deu vontade. Eu sinto muito pelo toque contido, pelo abraço rápido em datas comemorativas ou em chegadas ou partidas. Eu queria te falar mais coisas, saber da sua vida, dialogar essas opiniões todas, medo de ser tarde demais. Eu queria ser mais corajoso e leve, não ter essa vergonha que me doma o peito e a fala. Desculpa pelos atritos todos, eu sou meio assim, desse jeito torto, intenso e explosivo. Porém, desculpa pelas vezes que fui brando e você esperava mais ânimo e empolgação. Por não acolher sua irritação e decepção. Além das desculpas, vale muitos agradecimentos, principalmente por tantas vezes que você calou seu desejo e seu ímpeto pra dizer que o mundo é um lugar melhor do que eu consigo perceber e por me proteger de tantos temores que vagam e rodeiam por aí, pelas preocupações e pelos sacrifícios.
Desculpa, as palavras tão meio tropeçadas, confusas, talvez. Mas, eu quero admitir, eu sou uma pessoa difícil, eu não caibo nos planos, eu derrapo, eu engano, porém eu sei que uma vez ou outra você sentiu orgulho de mim, por mim. E eu não sei se já disse, mas tenho muito orgulho e admiração por nossos caminhos cruzados, por essa oportunidade de relação e aperfeiçoamento. Uma vez eu li em algum lugar que quem ama não pede desculpas, discordo integral e completamente disso, é impossível num sentimento tão sublime quanto o amor e num momento tão diverso como a vida a gente não cometer tantas mancadas e se arrepender por isso, então me desculpo pela falta do abraço, do beijo, pela aparente falta de carinho e afeto, eu sou muito feliz e grato por você.

Com amor e afeto,

Derlour Dantas.

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