A Figueira e o sanhaço-azul

Derlour Dantas

Amar nos transforma, mas amor saudável não nos diminui.

Havia, no centro de um jardim antigo, uma figueira frondosa que sonhava em ser amada como as rosas. As rosas eram visitadas todos os dias, recebiam elogios e olhares demorados. Eram cheiradas e fotografadas por muitos. A figueira, firme e silenciosa, oferecia sombra, abrigo e frutos suculentos e docinhos — mas quase nunca era notada, assim ela se percebia.

Um dia, um sanhaço-azul muito curioso e sapeca pousou em seus galhos.

— Por que você parece tão cansada? — perguntou ele.

— Porque tento florescer como as rosas — respondeu a figueira. — Estico meus galhos demais, gasto minha seiva tentando ser o que não sou, para que alguém fique e ninguém se importa ou fica.

sanhaço-azul inclinou a cabeça, olhou o todo daquele jardim e disse:

— Mas eu vim justamente porque você é figueira. Suas sombras me protegem do sol forte. Seus frutos, ou melhor suas infrutescências são doces, macias e ricas em cálcio, potássio, ferro e fibras me alimentam. Se você tentar virar rosa, perderá o que me trouxe até aqui. Você quer deixar de ser figueira?

A figueira silenciou. Percebeu que, ao tentar ser outra coisa, vinha descuidando das próprias raízes, de si. Estava dando além do que podia, esperando que alguém permanecesse por dívida e não por escolha.

Então decidiu algo simples e difícil: cuidaria primeiro de sua terra, de suas raízes, de sua seiva e de seus próprios ciclos. Não forçaria flores fora de época, não dobraria galhos até quebrar.

Com o tempo, não apenas o sanhaço-azul voltou — mas outros pássaros, vespas, borboletas e tantos outros seres também. Não porque ela se esforçava para agradar, mas porque estava inteira. E passou a valorizar quem chegava, quem ficava, os encontros e momentos tal como eles são e acontecem e não como ela idealizada e se comparava com a roseira... Ela havia focado tanto na roseira, que não percebia os acontecimentos dos seus próprios galhos, flores, ciclos...

E quando um vento forte ameaçou derrubá-la, foram aqueles pássaros e tantos outros que surgiram e que antes ela não percebia, que ajudaram a espalhar suas sementes.

Moral da história:

Quem não cuida das próprias raízes, folhas, características, ciclos, acaba oferecendo sombra com o tronco rachado e sombra não é suficiente para que alguém fique. Amor saudável e legítimo nasce quando seres inteiros escolhem ficar, se escolhem em companhia, respeito e afeto mútuo - e não quando um se dobra e se quebra tentando fazer com que o outro escolha ficar. E se me permite acrescentar algo para você: responsabilidade afetiva começa no compromisso de não abandonar a si mesmo para permanecer na vida de alguém. 💛      

Reconhecer-se e cuidar de si é o primeiro ato para um relacionamento saudável, para uma real responsabilidade afetiva.

Muita gente quer ser reconhecida na profundidade, mas apresenta apenas a sua versão editada que alguém insista e fique. Talvez sua inteireza não venha de virar alguém mais impressionante, mas de sustentar quem você já é, mesmo com falhas e medos. Relacionamento não é competição de contextos, é gente inteira se escolhendo companhia, afeto e respeito. Fica a orientação!

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